Brasília, cidade-menina, teme as suas assombrações

Ainda é cedo para Brasília ter as suas assombrações urbanas. Afinal, uma cidade de quase 58 anos ainda é muito menina a ponto de viver com fantasmas. Isso mais parece coisa das metrópoles centenárias. No entanto, tenho visto vultos esquisitos que parecem vagar na calada da noite. Outro dia, ali no Museu Nacional Honestino Guimarães, no Complexo da República, avistei uma criatura correndo com um vestido esvoaçante, que se enchia como um balão ao vento.

Parecia uma mulher e tinha uma prancheta nas mãos. Ela olhava para o monumento e começava a riscar em um provável bloco de anotações. O movimento era o de criação de um croquis. Tentei chegar perto e ela correu, riscando o concreto deserto. Pensei logo que fosse uma assombração urbana. Lógico, era a Arquiteta de Branco! Como não tinha percebido isso antes?

Estava ali a vagar e a desenhar um esboço que nunca consegue terminar. Provavelmente, a Arquiteta de Branco deve ter vindo a Brasília com a equipe de construtores. Aqui, embrenhou-se no sonho de erguer a capital no interior do país e descuidou-se da saúde. Morreu. Talvez, de tuberculose sem conseguir terminar as plantas arquitetônicas. Hoje, é vista, na madrugada da Esplanada, sempre com um olhar apaixonado de criador diante da obra.

Se você nunca viu a Arquiteta de Branco, talvez já tenha ficado diante do Dragão da Independência Sem Cabeça. O bicho é feio que nem a moléstia. Está vestido com aquela farda impecável. Em uma das mãos, traz a bandeira e, na outra, o capacete de penacho vermelho. O corpo acaba no pescoço.

Ele vaga na região do Palácio do Planalto. O tempo inteiro querendo fazer a troca da guarda, mas não consegue. A assombração presidencial perdeu a cabeça quando tombou em serviço. Desmaiou e estatelou-se no chão. Sempre aparece quando uma autoridade máxima sobe a rampa do Planalto. Teve gente que o viu no dia da visita do Obama.

Credo em cruz, diz quem já ficou diante do Candango de Carroça a atravessar o Eixão em velocidade toda madrugada de lua cheia. É uma loucura. Ele dá gritos de terror e tem ares de justiceiro. Quando chega por aqui, quer invadir os comércios e saquear tudo para dar aos mais pobres.

É um operário que veio cheio de boas intenções para a construção de Brasília e, na hora de comemorar a inauguração, nem convite recebeu. Morando a quilômetros dos monumentos que levantou, morreu atropelado por um caminhão em 21 de abril de 1961. Hoje, dizem, invade de carroça alguns comércios locais e rouba mantimentos para doar aos sem-lote.

Medo daquele de sufocar a voz é quando se encontra o Corrupto da Mala Abarrotada. Gente, o endiabrado ser ronda o Congresso Nacional e a Câmara Legislativa. Tem o dom de comprar almas com dinheiro insaciável. Quem fica diante dele e aceita o seu “sim” é arrastado pelo maldito para um vale movediço. Nunca mais consegue se livrar do vício de querer mais e mais.

O miserável nunca consegue esvaziar a mala, que estufa de um dinheiro que se contorce como verme. O Corrupto da Mala Abarrotada anda a qualquer hora do dia, não tem vergonha de nada, nem de câmeras escondidas. Aliás, é uma assombração tão contemporânea que adora expor a sua legião de zumbis como sensação no YouTube. Ah, ainda tem o Presidente Que Esqueceu de Morrer… Essa assombração é vista diariamente! Se encontrá-la, ofereça uma cachacinha e siga em paz o seu rumo.

 

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